• Noemia Colonna

Você conhece o "lado negro" da música clássica?

Aqui em Berlim, todos os sábados de manhã acordo com a vitrola do vizinho tocando música clássica. É um Bach, um Beethoven, um Brahms ou um Schubert que vão entrando pelo quarto, me lembrando que começa mais um sábado berlinense em um bairro tipicamente alemão e tradicional.  

O meu bairro é cheio de lindas ruas como essas das fotos, clicadas pelo olhar sensível da brasileira Ligia Fascioni

Ao acordar, sinto-me em uma cena de filme com trilha sonora. Algumas alegres, outras dramáticas, outras soturnas, com todas as sensações arrebatadoras que a música clássica desperta em quem a ouve.

Se antes mesmo de pensar em viver na Europa, eu já apreciava esse gênero musical, agora, vivendo em Berlim, meu universo sobre esta arte se amplia ainda mais.


Claro que por razões óbvias. A Alemanha é um dos países que mais consome esse tipo de música. Local de nascimento de grandes mestres, como os citados no início do meu texto (exceto Schubert, que era austríaco),  uma matéria da Deutsche Welle relata que a música erudita está presente na vida dos alemães desde a mais tenra idade: “dos quase 83 milhões de habitantes, cerca de 14 milhões tocam um instrumento ou cantam num coro. Uma em cada seis famílias toca um ou mais instrumentos. Há listas de espera para estudar em escolas de música e jardins de infância com educação musical. Em todo o país existem quase mil escolas públicas de música, frequentadas por quase 1,5 milhão de crianças e jovens”, diz o texto.


E foi aqui,  nessa terra pródiga de salas de concertos, corais, orquestras, teatros  e vizinhos que te acordam com Haydn lembrando que o mundo tem os seus dramas e também alegrias, que tomei conhecimento da história do maestro norte-americano Brandon Keith Brown, 38 anos.

Foto: Neda Navaee

Um dos poucos à frente de orquestras renomadas, Brandon vive em Berlim há 7 anos onde já regeu sumidades como a Frankfurt Radio Symphony Orchestra, a Badische Staatskapelle e a Berlin Radio Symphony Orchestra (RSB). Além disso, o músico coleciona regências pela Europa, Ásia, Africa e seu continente natal, América do Norte.


Porém, mais do que sua regência magistral, o que chama a atenção para o trabalho de Brandon é que ele não dispensa o privilégio de seu lugar e denuncia, sem papas na língua, o perigo de haver tão poucos negros na música clássica, seja no palco, na composição ou na plateia.



De fala, batuta e escrita afiadas, Brandon é autor de vários artigos no Medium onde, dentre outros temas, descreve como o racismo se opera sutilmente - ou nem sempre - no mundo da música clássica.


O maestro questiona por que pessoas negras não vão a salas de concertos e por que cada vez menos seus pares negros - homens e mulheres - são contratados para regerem orquestras renomadas.


Historicamente, a grande maioria de maestros é formada por homens brancos. Contudo, com muitos dados, Brandon aponta que o problema da raridade de profissionais negros, homens ou mulheres, não está na ausência de excelentes músicos de pele escura. Pelo contrário. A excelência negra existe em diferentes gêneros musicais, e na dita música erudita não é exceção.


“O problema está no fato de que as organizações que lideram o ambiente da música clássica são inevitavelmente instituições brancas e, portanto, carregam traços de um racismo institucionalizado que termina por não enxergar a excelência da atuação de músicos negros. Quando pessoas negras não se veem representadas no palco, entendemos que não somos bem-vindos neste ambiente; então, estar ali para quê? É desconfortante estar onde não nos vemos”, diz.




Durante um café que tomamos juntos, Brandon me afirma que a música clássica também é para pessoas negras, principalmente quando o acesso a concertos e espetáculos nos é incentivado.


Segundo ele, há muitas histórias de exímios músicos clássicos negros que nem sempre foram contadas com o devido destaque.


Beethoven escreveu sua Sonata n. 10 para o violinista virtuoso negro George Brigetower.


No início do século 18, quando a escravidão negra  ainda reinava em grande parte do mundo, Joseph Bologne, o Cavaleiro de Saint-Georges, impressionava com suas composições magistrais, sua regência única e seu violino virtuoso. Nascido em Guadaloupe em 1745, filho de mãe negra com um mercador de escravos, Bologne foi levado na infância para Paris onde começou seus estudos na música aos 7 anos. Ao longo da carreira, escreveu sinfonias, concertos para violino e orquestra, quarteto de cordas, sonatas e canções no estilo de Mozart e Haydn. Ele também escreveu pelo menos cinco óperas, e ficou conhecido como “O Mozart Negro” de sua época. Aqui você entende por quê: 




Já o afro-americano Harry Lawrence Freeman, que viveu no final do século 19 e início do século 20, foi considerado o “Wagner Negro”. Maestro, compositor de óperas, professor e empresário, estreou a primeira ópera nos EUA escrita e produzida totalmente por artistas negros. Sua obra mais conhecida é a ópera “Voodoo”, de 1928.


Harry  era muito próximo a Scott Joplin, outro grande nome da música clássica do início do século 20, talentoso pianista e compositor de sinfonias. Pouca gente sabe que a famosa música "The Enterteiner" é composição dele. No Brasil, a peça foi popularizada ao servir de trilha sonora na propagada de um banco. Confira aqui:



E os exemplos de Brandon não param: Rudolph Dunbar, britânico com origem Guianesa, foi o primeiro maestro negro a reger a Filarmônica de Berlim; o norte-americano Dean Dixon, maestro principal da Frankfurt Radio Symphony Orchestra; George Byrd, maestro da Carolina do Norte, nos EUA, o primeiro negro a reger a célebre orquestra de Gewandhausorchester, localizada na cidade alemã de Leipzig.




“Você nunca ouviu sobre esses autores? Não se espante. Quando quem escreve sobre a história da música clássica tem apenas uma visão branca desse universo, o legado de mestres negros fica de fora”, reconhece Brandon.

Pergunto-lhe, sendo ele um maestro negro, como se deu sua consciência sobre o impacto da baixa representatividade de artistas negros na música clássica.


Ele me conta que desde cedo, quando começou a atuar profissionalmente.  Um episódio que marcou sua carreira foi ser demitido seis semanas depois de haver começado como professor de regência na Brown University, uma das mais célebres dos EUA. O motivo? Os alunos não estavam acostumados com o seu tipo de regência e nem com a disciplina que ele impunha na condução das aulas. “Claro, para eles não era comum ter um professor negro de regência dando ordens. Processei a instituição por me demitir por razões raciais e o caso ainda está correndo na justiça”, conta Brandon.


O músico coleciona evidências da dificuldade que existe em ser negro à frente de uma orquestra. Ele enfatiza que músicos brancos trabalham a vida inteira sem nunca ter tido maestros de cor, e por esta razão, não experimentam a mesma sensação de perda que ele, por esta falta de representatividade.


“Músicos aprendem que não temos competência e nossa musicalidade não tem valor. Sou constantemente olhado com suspeitas quando me apresento como o novo maestro. Minhas habilidades são constantemente postas à prova e muitas vezes os integrantes da orquestra não aceitam as  minhas orientações durante os ensaios”, reforça.


“Como maestro negro atuando em um ambiente com baixa diversidade, minha principal competência no trabalho se torna a minha capacidade de adotar repertórios e valores culturais brancos, não a minha habilidade artística. Eu conhecer minuciosamente cada aspecto harmônico da obra de Mozart não é relevante. Adaptar-me à brancura, isso sim,  define o meu sucesso”, avalia. “Estar sozinho em uma sala cheia de pessoas que não entendem - ou não têm interesse em entender - meu repertório cultural ou narrativa é muito desagradável”, afirma.


Pergunto como ele consegue, então, resistir a tudo isso e, ainda assim, manter-se na posição de maestro, sendo, inclusive, convidado a reger excelentes projetos dentro e fora da Alemanha?


“Música é a minha melhor expressão e minha única chance de ser visto. É a forma como me comunico e a melhor oportunidade de produzir empatia com aqueles que são diferentes de mim. Quando estou a frente de uma orquestra, estou em pelo menos três lugares de uma única vez: no presente, no passado e no futuro. Você planeja e ensaia tudo sobre o que quer de uma determinada peça, mas pode ser que, dependendo da atuação dos músicos, você possa permitir algo diferente, espontâneo. Você usa a atenção e a energia da audiência para criar sensações intuitivas de inspirações inesperadas. A maior emoção da música ao vivo é quando a orquestra reage e responde em um determinado momento. Minha regência serve de condutor entre o compositor e a orquestra, enviando a mensagem deles para a audiência”, relata. “Para mim, tudo isso é mais forte e mais importante do que as adversidades do racismo”, diz emocionado.




Eu concordo totalmente com Brandon.  Acima de qualquer diferença e intolerância, o ideal deveria ser prevalecer a beleza da música, com seus sons, ruídos, silêncios e emoções que atingem o mais profundo da alma. Questionar o porquê do baixo número de pessoas negras tanto no palco, na composição ou na plateia, deveria ser o primeiro passo a ser dado por todos que apreciam a musica clássica, para que, só assim, esta obra de arte verdadeiramente reflita a riqueza de sua  diversidade. Tanto aqui na Alemanha, quanto no mundo.


Finalizo esta história de excelência negra em Berlim  com mais uma dica de ouro de Brandon:


“Envolver e contratar mais maestros negros, nos dando autonomia e responsabilidade sobre nossa criação artística nas obras-primas da música clássica, sinaliza ao  público branco que também somos competentes e os familiarizamos com o artista e o público negro. Este é o melhor indicador de mudanças raciais positivas  que as organizações musicais podem começar a fazer”.

Eu, da minha parte, vou deixar uma notinha na porta do meu vizinho, agradecendo a gentileza de me acordar com uma boa música clássica todos os sábados, mas que das próximas vezes, seja também com a de um maravilhoso compositor ou compositora negra. Merecemos.


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