• Noemia Colonna

Tem algo de fashion no reino da Dinamarca

Vim pela enésima vez à Copenhague, cidade em que morei por dois anos para um mestrado em Cinema e Estudos da Mídia. O lugar ainda me recebe carinhosamente com o seu hygge, graças à redes de amigos e rastros de estórias que fiz e deixei por aqui.

Escrevo de um café em uma manhã naturalmente fria de outono na cidade, com suas cores douradas e rosas, típico da estação.


O motivo de estar aqui, desta vez, é bem especial. Vou acompanhar minha sobrinha que veio para um show e aproveitou para conhecer a capital da bicicleta e de castelos pela primeira vez. Moramos pertinho uma da outra na Europa e combinamos de explorar a cidade juntas.


Tia e sobrinha turistando no Nynhavn

Vejo o quanto o destino nos surpreende. A tia que a levou quando criança para espetáculos de princesas de Disney no gelo, agora a acompanha adulta para ver castelos de verdade e a história não tão fofinha da pequena sereia de Christian Andersen, um dos autores mais notáveis do país.



Mas o motivo que me inspira a escrever este texto é outro.


Adoro voltar aqui e acostumar meus olhos lentamente à paisagem urbana salpicada de bicicletas e aos habitantes da cidade, cujo país tem fama de ser o mais feliz do mundo.


Em massa, eles se locomovem em bikes estilosas e outras, nem tanto. Parecem criaturinhas de um mundo fictício. Todos, em ordem quase milimétrica, pedalando ordenadamente nas ciclovias, sinalizando, respeitando sinal de trânsito e deixando claro que um mundo sustentável e verde ainda é possível, sim.





No café em que estou fazendo meu trabalho remoto, vejo dinamarquesas concentradas em frente aos seus laptops com seu estilo inconfundível: coque desajeitado no alto da cabeça, meias fio 80 sobre as longas pernas que terminam em um tênis nike e vestidos. Claro, vestidos. Preto, cinza, sóbrio, mas um vestido.


A feminilidade escandinava sempre me fascinou. Eu nunca consegui entender como aquelas mulheres conseguiam deixar o inverno ou qualquer dia (quase) sempre gelado de qualquer estação do ano, tão charmoso e elegante.


Elas têm um estilo próprio e muito sutil. É preciso olhos bem treinados para perceber imediatamente; mas uma vez lá, você saca uma dinamarquesa de longe! E não importa o seu tom de pele ou etnia: o estilo está lá. Se com coque duplo, mais dinamarquês ainda.


Esse estilo eu vejo assim: despretensioso, quase como “nem pensei em que roupa usar hoje e peguei a primeira que vi”, mas ali tem uma pecinha que dá ao visual um toque deliciosamente único. Seja um vestido de corte e linhas retas, ou uma maquiagem bem feita quebrando a sisudez do dia gelado, uma bota de cano curto com couro de boa qualidade, de salto ou não. Tudo isso, temperado com muita feminilidade e auto-confiança. Ah, isso elas têm de sobra!


A jaqueta de couro preta já faz parte da paisagem. Ao ver um punhado delas nos corpos que bailam nas ruas, você percebe que está no outono. O traje é obrigatório. Cabelos louros ou o coque desajeitado de cabelos de qualquer cor e textura no alto da cabeça fazem contraste sobre o preto do couro. Parece um uniforme, mas sem o tédio que este tipo de indumentária provoca.


Eu adoro e sempre gostei da moda escandinava. Aquela coisa de mostrar a feminilidade das mulheres sem muito frufrus, mas com uma auto-confiança incrível. Femininas, carismáticas, despojadas, independentes, tudo na medida certa, sem dar muito na cara.

Não é por acaso que minha grife favorita na Escandinávia é uma loja sueca, cujas blusas brancas de seda delicadas e cortes retos e pragmáticos fazem o meu dia mais firme e elegante, sem perder a ternura jamais, nem tampouco a minha brasilidade. Claro, posso apreciar as dinamarquesas, mas não abro mão do encanto que o Brasil me deu.


Quem me vê sorrindo pensa que estou quentinha...

O cheirinho forte do café me lembra que é hora de partir para encontrar minha sobrinha que chegou depois de mim.


Levanto, recolho meu laptop, mochila nas costas, e vou direto para a minha bike juntar-me à massa de ciclistas dinamarquesas e seus estilos inconfundíveis. A memória voa no tempo e me sinto, eu mesma, um pouco dinamarquesa, mas com o meu estilo brasileiro indisfarçável e com a dose de auto-confiança que aprendi a ter, influenciada pelas mulheres - não só de origem dinamarquesa - que fazem desta cidade um exemplo único de que moda e mobilidade urbana também é político e empodera.


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