• Noemia Colonna

Sobre como alisar sua auto-estima e não os seus cabelos

Eu tenho 7 irmãs. E minha casa só não é a das 8 mulheres porque meu único irmão homem também tem voz no pedaço e minha mãe maravilhosa reina absoluta com o seu carinho sobre nós.

Então, somos a casa bem edificada das 9 mulheres e um homem.

Aqui somos nós, em 2016, quando nossa irmã caçula (a de óculos escuros) ainda vivia entre nós, antes de se tornar uma estrela no céu.


Mas o que me leva a escrever sobre minhas 7 irmãs é um motivo capilar (meu irmão fica de fora porque raspa o cabelo). De nós 8, 4 assumimos os cabelos naturais há muitos anos, incluindo minha mãe, com seus cabelos branquíssimos e elegantes. As outras 4 optaram por manter os alisamentos ou apliques de longos cabelos lisos, replicando a estética branca tão imposta a nós por centenas de anos pela mídia e pelo olhar da sociedade como um todo.


Só que eis que há menos de um ano, uma transformação silenciosa começou a operar nesta família majoritariamente feminina. Mais duas irmãs “criaram coragem” e abandonaram, de vez, o alisamento. Não comentaram nada. Simplesmente, pararam de alisar aos poucos e, assim que a raiz natural começou a ficar grande o suficiente elas, vrapppp!!! Passaram a tesoura e apareceram com seus cabelos curtos e com cachinhos mega saudáveis.


Não sem antes sofrer todo o processo de dor e indecisões tão típico sobre manter ou não os cabelos naturais.


Eu me livrando, aos poucos, da tintura e assumindo os fios platinados


Detalhe: elas são mulheres com mais de 50 anos, que passaram a maior parte de suas vidas desconhecendo completamente a natureza de seus cabelos, alisando com pente quente, química, escova progressiva e todo tipo de apetrechos que só a indústria “escravizadora” da estética capilar sabe fazer.


Antes de achar que julgo e condeno aquelas mulheres que optam por alisar seus cabelos, já digo que este não é o caso. Sou a favor da escolha e não da imposição. Sou a favor de que nós, mulheres negras, tenhamos o direito de escolher usar nossos cabelos naturais ou alisados, sem o julgamento alheio, sem discriminação, sem perdermos vagas de empregos, sem sermos tachadas de “feias” ou “desleixadas”. Queremos liberdade para ter e usarmos o cabelo como bem quisermos.


É bem verdade que já avançamos muito nesta questão. Hoje, vemos cada vez mais mulheres negras com seus cabelos naturais, tanto na mídia quanto na vida real. Já podemos até falar de uma geração de jovens brasileiros que já nasceu sem conhecer a ditadura do alisamento. Esses são três dos meus sobrinhos e sobrinhas com suas madeixas poderosas e livres de qualquer ditadura de cabelos lisos e cacheados, que inauguram a nova fase de geração livre e empoderada da família:



Mas como somos muitas, infelizmente, ainda há mulheres receosas em assumir seus cabelos e, quando assumem, ainda sofrem com olhares discriminatórios, sabemos bem.

Minhas irmãs estão aí para provar a minha tese. Entretanto, é simplesmente encantador vê-las, aos poucos, fazendo as pazes com suas raízes e, desta forma, se aproximando cada vez mais de nós, o grupo que assumiu os crespos

Numa bela manhã, acordo com meu whatsapp bipando. Era mais uma irmã postando foto sem o aplique, com seu belíssimo rosto a mostra emoldurado por cachinhos ainda sem vida, mas gritando por um carinho e cuidado que, quando chegar, se transformará em uma poderosa ferramenta de afeto, afirmação e aceitação de nossas negritudes femininas. “Será que eu consigo, maninhas?”, dizia sua mensagem logo após a foto.

A irmã recém cacheada é a primeira a dar o incentivo na escrita típica de aplicativos de mensagens instantâneas: “Não alise mais, porém continue fazendo escova! Garanto a você que se sentirá muito melhor! Com o passar dos tempos, você deixará de fazer escova (porque finalmente ficará sem alisamento!kkkkk) eu fiquei 6 meses sem alisar, fazendo escova e cortando aos pouquinhos! Acho menos chocante pra nós que somos viciadas”, diz minha segunda irmã mais velha e recém-assumida.


Em seguida, encaminha um print de uma modelo negra com cabelos curtos com o seguinte comentário: “olhe que linda! Você ficará assim um dia, ainda mais que você adora se maquiar e está ficando magrinha! Seis meses depois cortei a parte alisada do meu cabelo e resolvi encarar!!” E dá-lhe print da própria foto, toda sorridente com seus cabelos naturais:



"primeira foto sem a faixinha!", diz minha irmã toda orgulhosa dos seus cabelos


5 anos atrás, no meu mestrado em Mídia, escrevi uma revisão de literatura sobre a identidade das mulheres negras por meio do cabelo, baseada na obra da escritora norte-americana Ingrid Banks, Hair Matters: Beauty, Power, and Black Women's Consciousness (Em tradução livre:Assuntos de cabelo: beleza, poder e consciência das mulheres negras”).

Em sua obra, Banks entrevista mais de 50 mulheres negras, de adolescentes a idosas, mapeando o questionamentos delas sobre a visão cotidiana que têm de si mesmas sobre raça, gênero, sexualidade, beleza e poder por meio do cabelo natural.


Em meu artigo, descobri e ressaltei que, para nós, mulheres negras, o cabelo é um dos primeiros atributos a chamar a atenção das pessoas sobre nós, não apenas porque este reflete percepções de atraentes ou desinteressantes, mas também porque transmite importantes significados políticos, culturais e sociais, principalmente em relação à identidade do grupo.


Durante minha escrita e próprio processo de transição capilar, inicialmente foi muito doloroso descobrir que minhas experiências de rejeição ou inadequação passavam pelo meu cabelo. Foi doloroso descobrir que ao alisar minhas madeixas desde criança, estava, no fundo, tentando me afirmar como pessoa e pedindo a aceitação do olhar do outro: de um namorado, de uma amiga, de um chefe e por aí vai.


Mas também foi libertador compreender que esses questionamentos tinham origem nas imagens convencionais de beleza que não privilegiam a minha pele escura e nem os meus cabelos crespos. Sendo assim, por que assumi-los e aceitá-los? Muito louco, tudo isso, não é? Como questionar algo tão inerente à nossa existência, que é o cabelo que combina tão lindamente com a cor da nossa pele?


A poeta Stephanie Borges, em seu livro-poema “Talvez precisemos de um nome para isso”, reflete muito bem essa nossa angústia de mulheres negras quando diz sobre nossa obsessão com os cabelos:


“é curioso como algo
sempre crescendo vire essa fonte de inquietação
quantas coisas podem supor a seu respeito
se você retocar ou não”.

Por que temos que brigar com algo que sempre cresce do jeitinho que é e querendo ser ele mesmo?


Hoje, entendo que mais do que para minha amiga branca com seu cabelo mainstream, meu cabelo crespo tem um papel importante porque fortalece a minha subjetividade de mulher negra. A minha identidade social se firma e se afirma até hoje, à medida em que me mostro completamente livre de recursos químicos que alterem a mensagem de quem eu realmente sou.


“A revolução depende de poucos acessórios”, diz Stephanie tão sabiamente em seu poema.


com frizz ou sem? com sorriso, por favor.


Sim, não somos só cabelos, mas nossos fios espiralados dizem também quem somos, quando contradizem todo um discurso de enfraquecimento da beleza do corpo negro ao longo dos séculos.


Viu como nossos cabelos provocam profundas reflexões?


Se minha irmã que mandou a fotinha no WhatsApp realmente abraçar seus cabelos crespos, lá em casa vai ficar faltando apenas uma a resistir. E veja a não coincidência: a última a alisar é minha irmã mais velha, nascida na geração do desmerecimento dos cabelos afro, quando não alisar não era sequer uma opção.


Mas ela é antenada. E uma Colonna. E mulher preta. Transformamos.


Devagarinho, as 8 mulheres vamos construindo nosso lugar no mundo, com nossos corpos e cabelos tão próprios, tão nossos e tão lindos.


E você, já fez um carinho no seu cabelo afro hoje? Manda um print da foto pra gente ver :-)


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