• Noemia Colonna

O trabalho remoto e a arte de não desistir

Antes da crise do coronavírus, fazer trabalho remoto para muita gente parecia algo distante. Agora, com as mudanças impostas pelo novo tempo,  empresas - principalmente as governamentais - passam a adotar o teletrabalho tornando o que muitos consideravam ser um sonho, realidade para mais pessoas.   

Não. O seu trabalho não é possível de ser feito a distância. Desculpe, não posso tê-la em minha equipe”. 

Isso era o que eu ouvia em 2016, de chefes de setores do Poder Judiciário que eu procurava para oferecer minha experiência de especialista em comunicação, redatora, jornalista e gestora de redes sociais. O "não" era certeiro por que eu ousava pedir trabalho remoto como servidora pública concursada.



Imagem de Goumbik por Pixabay

Foi neste ano que o Conselho Nacional de Justiça, órgão que tem o papel de regular e modernizar a Justiça no Brasil , tinha finalmente aprovado o regime de teletrabalho em todos os tribunais do país, a fim de trazer mais eficiência ao sistema. 


A lei era moderna e inovadora, mostrando que os tribunais podiam alinhar-se com as tendências e práticas ágeis de gestão no mundo digital. Mas nem todas as mentes de quem podia executá-la acompanhava o mesmo raciocínio. 


A princípio, o teletrabalho na Justiça começou timidamente sob a crença de que apenas atividades da área fim poderiam ser executadas de forma remota. Ou seja: tarefas repetitivas feitas para cadastramento  de processos e fáceis de monitorar o rendimento. Quanto mais processos concluídos e em maior quantidade do que aqueles feitos por servidores presencialmente, mais apto e justificado estava o teletrabalho. 


Acreditava-se, equivocadamente, que trabalhos intelectuais e operacionais como o meu eram impossíveis de serem mensurados e, portanto, nulos para o teletrabalho. 

Mas eu sabia, por pesquisa e insistência, que os inúmeros benefícios do trabalho remoto contemplavam e contemplam diversas áreas. Visionária como sou, não perdia a fé e nem a esperança de que poderia trabalhar de casa e render até 3 vezes mais do que entre as quatro paredes de um departamento formal.


Contaria a meu favor o tempo economizado no trânsito, a concentração total e a flexibilidade de realizar minhas tarefas em horários em que meu corpo e mente melhor rendessem. Isso sem considerar as várias facilidades de contato com meus colegas de equipe e chefias a qualquer hora e lugar, por meio de ferramentas tecnológicas funcionais, que só dariam mais valor e agilidade às minhas atividades. 


Mas, tudo isso, aos olhos de muitos chefes resistentes ao novo e temerosos da autonomia de seus colaboradores, soava como delírio de quem queria mesmo era  “trabalhar pouco” e  ficar longe do controle de quem gerencia. 


Não adiantava experiência, resultados comprovados de rendimentos, dados e legislação garantindo que o gestor poderia ficar tranquilo que os resultados apareceriam em questão de meses, ou até de dias. Era praticamente impossível convencer um gestor a me autorizar o teletrabalho. 


Lembro-me uma vez, quando estava temporariamente fora da minha área de comunicação e trabalhando em um setor de área fim, registrando andamento de pilhas e pilhas inacabáveis de processos em um sistema. Perguntei ao chefe sobre a possibilidade de eu fazer este trabalho - legalmente - de casa, e ele praticamente riu, como se eu tivesse contado uma piada - e de mau gosto - porque poderia influenciar os colegas a pedir o mesmo. Olha que perigo! 

Mas eu não desistia. Lia avidamente toda a legislação do CNJ sobre o trabalho remoto, e me apaixonava cada vez mais pelo tema. Afinal, a justiça estava a um pé do futuro e eu não queria ficar fora dele. No fundo, eu sabia que no mar de escuridão e resistência, deveria haver alguma ilha onde o sol brilhasse e jogasse luz sobre os benefícios evidentes que o trabalho remoto oferece. Você pode conferir esses benefícios aqui e aqui.  


Até que minha busca chegou ao fim. Em 2018, fui parar na área de TI, e lá, depois de um ano trabalhando semi presencialmente, consegui convencer meu superior de que poderia fazer entregas ainda melhores se trabalhasse em regime 100% remoto. Ele topou e não deu outra.



Foto de Noan Colonna me clicando no meio do meu happy tele expediente de casa

Se tudo o que alguém que deseja voar precisa é de um  leve empurrão, o meu chegou e me levou longe. Não decepcionei minha empresa. Produtividade lá em cima, novas ideias borbulhando e surgindo diante do maior tempo de sobra para estudar e me atualizar, comprometimento total e resultados satisfatórios.


A única coisa negativa nisso tudo era o fato de eu ser quase uma alma solitária neste regime de trabalho. Na equipe de quase 30 pessoas, eu e um outro colega éramos os únicos, e o meu ritmo nem sempre casava com o de quem permanecia presencial e preso aos limites de horários e quatro paredes. 


Mas eis que chega 2020 e com ele a crise do coronavírus impondo o isolamento social e o trabalho de casa nos órgãos públicos, e tudo muda de figura. De solitária e "diferentona", passei a fazer parte de uma equipe 100% remota.   De patinho feio e  de efetividade óbvia apenas para alguns poucos adeptos da eficácia do home office, o trabalho remoto tornou-se regra na Justiça brasileira, e pelo que consta em estudos e notícias, a produtividade vem só aumentando. Dá uma olhada aqui.


Se esta crise veio para trazer mudanças como prega os pensadores da atualidade, a minha veio com tudo. Observo que, quando os meus colegas falam a mesma língua do trabalho remota que a minha, não estou mais sozinha. Nossos ritmos se encaixam e todos aprendem coisas novas, que para mim já eram regras há muito tempo. Estamos todos iguais, chegamos à modernidade que a Justiça queria, mas só imposta pela força de um vírus para que os resultados aparecessem na prática.


Nem só os serviços de área fim estão sendo executados totalmente de casa, como também atividades que jamais seriam consideradas aptas a serem feitas à distância, como consultas médicas, estão sendo oferecidas e com total eficiência. 


Com a crise da pandemia, o departamento de saúde do meu tribunal passou a praticar a telemedicina, realizando consultas em clínica geral, pediatria, endocrinologia, dermatologia e ouras modalidades médicas.   Você entra no sistema, marca sua consulta lá e, minutos depois, recebe uma mensagem de WhatsApp confirmando horário e dia em que deverá conversar com o seu médico por alguma plataforma de conversa virtual. 


Isso, no Poder Judiciário. Aquele, onde eu ouvia de chefes que fazer trabalho de comunicação, escrita e de redação era impossível de ser feito no regime remoto 4 anos atrás. 


Que reflexão  quero trazer com tudo isso? A de que, às vezes, é necessário uma crise de proporção mundial como a da COVID-19, para que o ser humano se obrigue a enxergar novas possibilidades de vida.


Com o trabalho feito remotamente, há menos gente no trânsito, por consequência, menos combustíveis fósseis queimados e jogados na natureza; há menos necessidade de se gastar com roupas e outros itens considerados obrigatórios “para ir trabalhar” e, assim, menos consumo e produção de lixo despejados diariamente na natureza. 

Trabalhar remotamente significa definir e organizar seus horários de acordo com suas necessidades pessoais e de sua família, utilizando melhor o seu tempo para ser melhor vivido consigo mesma ou sua família. Veja que com essa presença de pais e mães em casa, combinada com o horário escolar de sua prole, o quanto se pode diminuir os índices de depressão entre crianças, adolescentes e jovens. Sem excluir o benefício para pais idosos que não ganham a atenção de seus filhos, ocupados que estão no trabalho ou no trânsito. Vai cair a venda de antidepressivos.

A crise realmente chegou para tornar o mundo diferente daquele que vivíamos um mês atrás. Se alguém me dissesse que dois anos depois de me tornar teletrabalhadora solitária em meu ramo eu iria ter uma equipe inteira de colegas na mesma situação, eu responderia que só se fosse em cena de um filme utópico (sim, porque como fã do trabalho remoto que sou, acho isso um sonho). Penso em cada um daqueles chefes, que me disseram 'não' ou afirmaram “serem contra o teletrabalho", quais sensações estão sentindo agora  com a realidade do trabalho remoto sendo parte até mesmo de suas vidas.

Alegro-me a cada projeto criado, desenvolvido, aprovado e oferecido como solução aos cidadãos durante a crise do coronavírus e feito totalmente em regime de teletrabalho. E adoro mais ainda quando ouço um colega dizer o quanto se sente mais produtivo trabalhando de casa, mesmo quando o filho pequeno interrompe, mas que em troca, ganha aquela beijoca do pai ou da mãe. 


O teletrabalho é para todo mundo? Claro que não. Tem gente que não se identifica ou não tem perfil ou disciplina para trabalhar sozinho e dar um basta ao expediente que pode se estender por 24 horas. Cada um tem a sua razão. Mas hoje, depois do baque, ninguém poderá mais ser “contra” ou “a favor” do trabalho remoto por convicção ou suposição. A experiência que todos nós estamos vivendo é que realmente dirá  o que é melhor para o colaborador e para a organização, e que vai repercutir em toda a sociedade. 


Se depois da crise o trabalho presencial será retomado, não há dúvida de que sim, até por que a situação é temporária e há serviços essenciais na Justiça que devem atender quem não tem acesso a serviços de internet no Brasil. Sabemos que isso se aplica a uma grande parcela da população. Mas o Poder Judiciário não será mais o mesmo.  Com fama de lento, moroso e burocrático, ele vem mudando sua reputação, pouco a pouco, com a agilidade trazida pelo teletrabalho, e bem antes da crise do coronavírus. 

Outra coisa  também é certa: tem gente que deve estar gostando da experiência “de futuro” e não vai querer mais continuar no “passado”. Se quiser pleitear o trabalho remoto, terá melhores argumentos que os meus no distante ano de 2016;  e resultados produzidos e testados por todos, inclusive os chefes resistentes ao novo. 


A Justiça já é móvel, mais rápida, autônoma e independente. Resta saber se irá querer continuar neste ritmo e fazer parte do novo quase velho.  


Imagem de Marta Kulesza por Pixabay

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