• Noemia Colonna

Histórias de mulheres possíveis

Atualizado: 20 de Out de 2019

Ultimamente ando pensando muito na vida que tenho levado ao longo dos anos. Passei a maior parte dela no Brasil, mas sempre que pude, viajei e cheguei a passar longas temporadas em alguns países como, por exemplo, 7 meses na Inglaterra, dois anos na Dinamarca e, atualmente, vivendo na Alemanha.
No vídeo a seguir, cenas nostálgicas que relembram meus (raros) dias de sol escandinavo.


Já contabilizei 27 países desde que fui ao exterior pela primeira vez, aos 24 anos. Desde então, nunca mais parei e tem uma longa lista me esperando. Minha coragem, às vezes, me assusta, causa estranhamento nas pessoas, mas jamais me paralisa.

Até que encontrei Rebecca Mqamelo, da África do Sul, e Ingrid Hostein, aqui mesmo da Alemanha.


Conheci as duas em oportunidades diferentes e suas histórias me encheram os olhos.


Rebecca tem 21 anos e até hoje já morou em 7 países. Sua maturidade é gritante.


Ingrid tem 84 anos e morou 12 deles em Miami, numa época pouco propícia para uma cidadã alemã sair de seu país durante a Guerra Fria, no final da década de 50. Desde então, ela perdeu a conta de quantos países já esteve, além de outros tantos que pretende visitar. Sua jovialidade é impressionante.



Ao conhecer a história dessas duas mulheres de gerações tão díspares, me dou conta de que não estou sozinha. Não importa em que estágio da vida estejam, elas possuem os mesmos desejos, partilham as mesmas experiências e estão inventando a vida que escolheram, cada uma do seu jeito e ritmo. Me senti parte do time.

Conversei primeiro com Rebecca em um café escondidinho no bairro da antiga Berlim oriental, em Kreuzberg, numa tarde chuvosa. Eu queria saber o que faz uma garota tão jovem passar um terço de sua vida em 7 países até agora.

“Eu só queria ser uma menina sul-africana saindo de Mthatha para o mundo”, diz Rebecca com os olhos brilhando com a mesma intensidade com que pronuncia o nome de sua cidade natal com um estalo forte na língua. “Meu idioma materno é o xhosa, e a junção da letra M com o T se pronuncia com este clique”, me explica frente ao meu espanto com o som inesperado de uma das 9 línguas faladas em seu país natal, África do Sul.

Aos 13, Rebecca saiu de casa para estudar em uma boarding school (colégios internos onde o estudante vive em um alojamento estudantil dentro do próprio campus da escola. São muito comuns na Inglaterra) para, segundo ela, dentre outras coisas, se tornar uma lady, descobrir sua paixão pela escrita e por viajar.


Sua primeira viagem internacional foi aos 16 anos, para a Alemanha. Exímia oradora e debatedora na escola, ela ganhou um concurso para representar seu país numa espécie de olimpíadas de discursos. E dali, não parou mais. “O concurso me levou para Hong Kong, Romênia, Turquia, Japão e Estados Unidos. Para uma adolescente, ver todos esses mundos diferentes e depois voltar para minha tão certinha e tradicional escola era muito frustrante”, relembra. “Foi o meu inconformismo que me levou a escolher a vida que tenho hoje”, diz.


Ela está no terceiro ano de Economia e Ciências da Computação em uma universidade americana na Califórnia, com metodologia pouco convencional. Nela, os alunos cursam as disciplinas enquanto viajam, vivendo cada semestre em um país diferente. “Já morei em São Francisco, nos Eua, Tóquio, no Japão, Seul, no Coreia do Sul, Hyderabad, na Índia e agora estou no sexto semestre morando em Berlim. As próximas cidades serão Buenos Aires, Londres e Taipei, e aí eu me formo em 2021”, conta animada.


“Eu poderia ser uma médica, ou engenheira, ou até economista em uma universidade de renome no meu país, mas preferi o não-convencional, por acreditar que minha curiosidade pelo mundo e pelas coisas que me cercam poderiam me levar a lugares ainda mais remotos e interessantes”, pondera.


Rebecca e sua curiosidade ilimitada pelo mundo.

E tem levado. Graças a esta experiência, minuciosamente contada em seu blog, Rebecca foi descoberta por um empreendedor social no Quênia, que a convidou a conhecer um projeto de economia comunitária naquele país. A organização criou uma moeda própria para um vilarejo lá, e gerou mudanças positivas e consideráveis na economia da região. “Ele viu o meu blog, me perguntou se eu teria interesse em aplicar meus estudos na experiência do projeto, e eu só perguntei em que data eu poderia chegar. A ideia era passar duas semanas, mas acabei ficando um mês, conversando com as mulheres, os locais, fazendo relatórios e trazendo experiências cada vez mais ricas à minha existência. Foi maravilhoso”, compara.


Pergunto como ela se vê aos 30 anos? “Fazendo o mesmo que faço hoje, desde que eu possa aliar meus conhecimentos em economia e computação a uma narrativa africana. Nós temos muito a ensinar ao mundo e mostrar o nosso vibranium da vida real (o metal fictício responsável pela riqueza de Wakanda do filme Pantera Negra), que é a a criatividade e a espiritualidade. Já tem muito gente falando sobre isso, mas também muito mais gente que ainda ignora este potencial. Quero usar meu talento para mostra-lo ao mundo”, revela.

Saio do papo empoderado com Rebecca e me encontro com Ingrid, esta alemã cheia de vida, bem humorada, e com os olhos argutos de quem já viu muito e ainda não foi o suficiente. Nos conhecemos em um jantar na casa de amigos, ela com seu cachorrinho, o Bonno. Logo me convidou para um chá em sua casa, e eu não pude recusar.


Ingrid nasceu em 1935 e saiu de seu país natal aos 9 anos, fugida da guerra que castigava a Europa, com o Nazismo assolando a Alemanha. Foi com a família para Kaliningrado, na Rússia. Viveu lá por um ano, até que a guerra acabou e a família se viu obrigada a voltar para a Alemanha que ainda padecia dos horrores do conflito.


“Sofri muito. Perdi meu pai, vi minha mãe ser violentada por soldados, vivemos a escassez. Mas eu nunca perdi a esperança de que tudo aquilo passaria. Eu precisava sobreviver para ganhar o mundo”.


E foi o que ela fez. Aos 22 anos, foi para os EUA trabalhar para uma organização internacional. Mas, ao conhecer o verde das praias de Miami, decidiu largar tudo e ficar por lá. “Cheguei sem um tostão no bolso. Fui convidada para trabalhar como garçonete em um restaurante; em um mês, o dono me convidou para ser gerente. Em um ano, me tornei sócia proprietária do estabelecimento, comprei casa e morei neste paraíso por 12 anos”, relembra.


Ingrid compartilhando vida com o seu Bonno

Tudo mudou quando teve que voltar para Alemanha por causa da saúde debilitada da mãe. Ao chegar, fez um concurso para um tribunal alemão e passou a trabalhar como assistente de juiz, como uma espécie de chefe de gabinete.


E é aí que nossas histórias se cruzam. Ela, como eu, trabalhou na Justiça, mas nem por isso seu olhar fora do comum deixou de criar. “Eu mudei a forma das pessoas trabalharem naquele lugar. Mudei o jeito de se fazer reuniões, comemorava aniversários todos os meses, e nunca, mas nunca mesmo, deixei de viajar durante minhas férias”, relembra.


Se aposentou aos 58 anos, e a vida de viajante ficou ainda mais intensa. África, Américas, Europa, Ásia, só ainda não foi para a Oceania “porque os vôos são muito longos, e minha saúde já não permite ficar tanto tempo parada”, diz.


Sua casa cheia de objetos trazidos das inúmeras viagens é acolhedora e alegre com as peripécias de Bonno. Mora sozinha, nunca se casou ou teve filhos. “Meu único amor era um belga católico, e eu, alemã protestante, não tinha permissão para casar com alguém de religião diferente da minha. Era algo inconcebível para a época. Ele se casou com outra, mas somos amigos até hoje, sem mágoas”, conta.


Enquanto ouvia sua história, me identificava com ela e meu coração se enchia de esperança. Me vi nela aos 80 anos. Mulheres que trabalham em funções públicas ou “empregos normais” também podem decidir por uma vida paralela fora da caixa, longe de padrões, pelo mundo.



Termino minha conversa feliz por ter, finalmente, compreendido o meu passado irrequieto na história de Rebecca e encontrado o meu futuro ainda mais irrequieto na vida de Ingrid. Somos mulheres possíveis.
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