• Noemia Colonna

Dona Janete, minha mãe


Quem é essa senhora doce e sorridente que espalha ternura e alto-astral por onde passa?

É a Dona Janete, minha mãe! Neste setembro de 2020 ela faz 80 anos. Nós, os filhos, gostaríamos de ter feito uma festa de arromba para ela, com toda a pompa, orgulho e circustância que a ocasião exige. Porém, infelizmente, a pandemia não permitiu.

Restou-nos então o consolo de registrar um dia de sua vida pelas lentes sensíveis e magistrais do fotógrafo de família Anderson Benjamim.


Faceira e orgulhosa, ela se permitiu fotografar sem grandes produções, do jeito que ela é e gosta de se mostrar ao mundo. Por isso mesmo, é essa senhora sensacional que, do alto de seus 80 anos, encanta amigos de longe e de perto, de outrora e de hoje. Os vizinhos a adoram, os amigos de sua igreja também, e por onde passa, arremata mais sorrisos, carinhos e afetos.



Dona Janete, minha mãe, é tudo isso e um pouquinho mais. Meus olhos de filha não conseguem escanear toda a grandeza de seu caráter e de sua história singular de mulher incrível que gerou 15 filhos (entre mortos, vivos e abortos), 14 netos e seis bisnetos.

Ficou viúva com apenas 48 anos. Nunca se casou novamente. Do jeitinho dela, preferiu honrar a memória do meu pai assim, embora a contragosto dos filhos. Eu queria que minha mãe tivesse se apaixonado novamente por um homem que dedicasse todo o amor que ela merecia. Mas não rolou, e lá foi ela criar a ninhada de filhos crianças e adolescentes na época da morte de meu pai, dando duro para colocar o pão de cada dia em nossa mesa.




Quando vejo minha mãe aos 80 anos com a mesma alma e leveza da juventude e infância, fico me perguntando como ela consegue depois de já ter perdido um marido e dois filhos. Meu pai e meu irmão mais velho morreram com uma diferença de apenas um mês. Um golpe atrás do outro, e ela ali, em pé, enquanto chorava por dentro e escondida de nós, para que quem ficasse não perdesse a fé em seus esforços sobre-humanos em continuar cuidando da gente e nos direcionando para um futuro bem melhor.

Ela também amargou a perda de sua filha caçula e preferida, encarando uma das piores dores de uma mãe: enterrar um filho. No caso dela, enterrar dois e permanecer viva e inteira para os outros nove que ainda dependiam (e dependem até hoje!) do seu amor, orações e vivacidade.



Dona Janete é a senhora sorriso. Nervosa e enérgica quando mais nova, minha lembrança de infância a via altiva e decidida sobre o que fazer e o que não fazer. Com ela não tinha papo mole: um não era não, e um sim era… “se bem que….”. Essa era minha frase preferida dela. Funcionava assim: ela vivia saindo para resolver coisas, visitar minha tia e sua única irmã, ir ao supermercado, ir para a aula de acordeom ou de corte e costura, e eu, como uma de suas 11 crianças, disputava o privilégio de poder acompanhá-la. Daí eu pedia: “posso ir com a senhora?” E ela de cara, apressada e se arrumando já tascava-me um “não", para depois de uma pensada rápida, emendar um "Se bem que…”. Eu nem deixava ela terminar.



Voava para meu quarto para me vestir, gritando: “pronto mãe, se bem que eu vou poder te ajudar se me levar contigo!!! Deixa eu ir!!”. E lá ia eu, pequenina vitoriosa e toda orgulhosa segurando aquela mão enorme e quente que me levava a descobrir as coisas mais incríveis “da cidade grande” que existiam para além de nosso quintal em nossa casa de Brasília.

Daí eu cresci, física, emocional e profissionalmente. E minha mãe crescia junto, me apoiando, me dando conselhos, mas ia ficando pequena na estatura física. Sorriso continuava grande e o corpinho ia encolhendo. Até que chegaram seus 80 anos e eu me tornei ela, enérgica, nervosa, altiva, decidida sobre o que fazer e o que não fazer.


E agora sou eu que sigo segurando sua mãozinha miúda e enrugada, com seus passinhos lentos, claudicantes, mas sempre firmes, sem nunca parar.


Lembro-me de uma viagem que fizemos juntas aos Estados Unidos para visitar uma de minhas

irmãs que lá vivia. Destemida, encarou lonquíssimos corredores de aeroportos, sem soltar um pio de reclamação. A pé. Só para bem mais tarde eu descobrir que ela tinha direito a cadeira de rodas desde o desembarque do avião. Quis morrer de tanto remorso, mas ela não deixou. “Relaxa, filha, eu consegui”, afirmava enquanto se sentava aliviada na cadeira que a companhia aérea tardiamente providenciou. Depois disso, nunca mais a deixei viajar de avião ou carro sem uma cadeira de rodas a reboque. Reclama, a danadinha, porque quer se mostrar capaz, mas para mim, não há maior alegria do que acomodar minha mãe e poder passear com ela pelos múltiplos lugares da vida.



Ela já foi sozinha de avião visitar outra filha em Portugal, bateu um pernão pelos monumentos, museus e praias do Rio de Janeiro aceitando o braço carinhoso do meu marido que a empurrava na cadeira de rodas fazendo graça, enquanto ela soltava a sua risada deliciosa e contente.

Ah dona Janete, mamãe… quantas mais aventuras nos aguardam? Eu não duvido da forca do seu sorriso e do quanto ele é capaz de te levar a lugares inimagináveis.


Hoje eu vivo na Alemanha enquanto ela continua em Brasilia. Mas lá longe, nos meus pensamentos e fantasias de uma filha saudosa, a imagino passeando comigo em algum castelo, comendo um delicioso apfestrudel ou simplesmente me oferecendo seu colo cálido e gentil, do jeitinho que só as mães sabem fazer.


A pandemia não me deixou sonhar mais longe. Então, fico com a pureza da resposta do sorriso da minha mãe-criança, que do alto de seus 80 anos me ensina que a vida é um eterno recomeço, e que a criança dentro de nós jamais deve morrer.


Essa é a dona Janete que fecha os olhinhos enquanto sorri. E eu, orgulhosa por ter herdado essa sua característica inconfundível, a saúdo e a reverencio pelo seu aniversário, cujo presente é nós, seus filhos que ganhamos. Minha mamãe, viva e presente aos 80 anos.


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Feliz aniversário, minha senhora. O presente é todo nosso

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