• Noemia Colonna

“Racismo é coisa da tua cabeça”, desde que você seja branco

Atualizado: 29 de Set de 2019

Quando as experiências são contadas do ponto de vista de quem sente, vale se colocar no lugar de quem escuta.


Não me faça rir! A dona da pele preta sou eu! Photo by Célio Maciel

É bem provável que toda pessoa negra, ao contar uma situação de racismo, tenha ouvido de um branco: “Ah, será que é racismo mesmo? Isso não será coisa da tua cabeça?”


Eu já ouvi isso em várias situações, mas duas, particularmente, me marcaram: uma, de uma amiga branca, terapeuta, que raramente conseguia se colocar no lugar do outro e fazer o exercício de escuta para compreender, ou pelo menos tentar, o porquê das minhas dores.


Quando eu tocava no assunto "racismo" em nossas conversas, ela sempre reforçava: “Isso não pode ser coisa da tua cabeça?”. O comentário me deixava confusa e ainda por cima me fazia sentir muito culpada pelo que eu mesma sofria.

Outra, é quando conto que quando vou a lugares de classe média onde transito – como local de trabalho, restaurantes, hotéis ou aeroportos – sou muito olhada. Aí, me dizem: “Isso acontece porque você é bonita, chama atenção. É assim mesmo!”


A questão é que isso também acontece quando estou com meu marido, negro, ou com alguma outra amiga negra. Agradeço o elogio de que somos bonitos, obrigada, mas daí essa “admiração” se converter em viradas de cabeça indiscretas acompanhadas de olhares perturbadores faz com que desejemos não sermos tão “bonitos” assim. Quem gosta de ser olhada o tempo todo, como um espécime em exibição? Incomoda muito mais que elogia.


Só acreditamos quando vemos


Por um bom tempo acreditei que era isso mesmo. Até que a vida me trouxe algumas experiências que demonstraram que eu não estava errada. Pessoas brancas com algum parente negro, como marido, mulher, filhos adotados ou não, passaram a me relatar situações de racismo e de preconceito vivenciadas e bem parecidas com aquelas que eu costumava contar. Perplexas, elas me diziam: “A gente só consegue compreender quando vive a realidade de uma pessoa negra!”.


Se for negra e nobre, escapa?

Isso me lembra o caso do príncipe Harry com a agora duquesa Meghan Markel.

Em novembro de 2016, ele assumiu o namoro com a atriz norte-americana Meghan Markle. Filha de pai branco e mãe negra, mesmo tendo a pele clara, os racistas não a perdoaram. Passaram a agredi-la virtualmente com todo tipo de insultos e preconceitos raciais. Jornais inescrupulosos fizeram uma varredura em sua vida íntima. Um deles, inclusive, ofereceu dinheiro a um ex-namorado da atriz para contar algo de desabonador sobre ela. Alguém pode dizer: “Mas com a Kate Mindleton, mulher do príncipe William, e até com a princesa Diana foi a mesma coisa. Os paparazzi não perdoam. É normal!” Mas qual das duas foi lembrada por suas origens raciais ou sofreu racismo nas redes sociais por ser branca? Não, não é normal.


Olhares que excluem


Negros de classe média são olhados por onde passam porque, para o senso comum, ali não é o seu lugar. A então namorada de Harry, rica, atriz e muito bela, sendo negra, também não escapou desses olhares. E quando se tornou esposa do 5o candidato à sucessão do trono britânico, nem assim as coisas melhoraram. Pelo contrário.


Meghan é alguém fora do ninho simplesmente por ter ousado pisar em um espaço onde não deveria. Sendo filha de mãe negra, como ousa se relacionar com um nobre? As “olhadas” que ela sofre vêm em forma de matérias maldosas. Depois que o primeiro filho do casal nasceu, os ataques não pouparam nem a criança.


Diante de tanta pressão com relação à etnia da então noiva, o príncipe Harry foi obrigado a emitir uma nota oficial, em nome do Palácio de Buckinghan, pedindo respeito a Meghan e à privacidade de sua vida pessoal.


Ao relacionar-se com uma mulher de origem negra, Harry, e toda a casa real britânica, se viram frente a frente com a força do racismo e da intolerância. Por causa de seu prestígio real, o impacto toma proporções ainda maiores e torna evidente o que era disfarçado: uma pessoa negra em espaços de riqueza, de elite e de poder não é bem-vinda. Incomoda e chama a atenção, não por que é “bonita”, mas porque é vista e olhada como “a exótica”, a estranha no ninho, a que ousou pisar em lugares que nunca foram reservados a ela.


Ainda assim, vejo uma luz no fim do túnel no caso do príncipe Harry. Todo mundo, até mesmo a imprensa, foi obrigado a reconhecer que a negritude tem peso, sim. Bonita, feia, gorda, magra, pele clara ou escura, cabelo natural ou alisado, é negra e está no meio da riqueza? Vai ser olhada e questionada sobre como ousou chegar aqui.


Relacionamentos como o de Harry trazem uma boa lição àqueles que dizem e afirmam, do alto de sua branquitude e seu corpo estruturalmente aceitável, que “racismo é coisa de nossa cabeça”. Ao vivenciar e reconhecer a violência sofrida por Meghan, Harry sentiu bem na própria pele o peso daquilo que muitos dizem ser “coisa da cabeça” do outro.


Conviva com pessoas negras ou, no mínimo, tenha empatia com a nossa história. Só posso te dizer que as chances de você constatar que, infelizmente, o racismo é uma realidade e acontece bem do lado de fora de nossa cabeça, são grandes.


*Este texto foi originalmente escrito para o blog A Casa da Mão, em julho de 2017.


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