• Noemia Colonna

A língua do amor

Atualizado: 29 de Set de 2019

Dia desses, em Berlim, aprendi que para cada ser humano ruim, mal humorado, indisposto a ajudar, terá sempre alguém oposto. Isso faz o mundo imensamente melhor.

Eu precisava despachar uma embalagem urgente pelo correio e, para tanto, tinha que imprimir uma etiqueta de retorno para colar na caixa e a mesma chegar ao seu destino corretamente. Como ainda não tenho impressora em casa, rodei procurando um quiosque onde pudesse fazer isso.


Depois de uns 20 minutos, encontro um, peço o serviço. O atendente não fala inglês de jeito nenhum. Todavia, consigo imprimir e pago um euro com a última moedinha da minha carteira. Saio com a etiqueta na mão, vou ao correio que fica a uns minutos distante.


Pergunto em inglês ao atendente se ali ele faz o tipo de serviço que preciso. “Possivelmente, sim”, responde desatento em inglês e com uma certa má vontade. Me distancio do balcão para finalizar o pacote e, distraída e desajeitada, não noto que apoio a embalagem sobre revistas que estavam à venda na loja do homem. Pronto. O estopim que faltava para uma rajada de palavras secas terminou de compor o cenário.


O sujeito me dá bronca em alemão, gesticulando ferozmente que ali não era lugar de fazer o que eu estava fazendo e me aponta o balcão correto. Peço desculpas super envergonhada e entendo tudo o que ele diz em alemão, apenas pelo contexto raivoso.


Sem graça, finalizo o meu pacote e o entrego para ser despachado. Bufando, o atendente passa o leitor de código de barras. Insiste, e nada da máquina funcionar. Resmungando em alemão, me faz entender que eu fiz o pacote todo errado, e por isso ele não estava conseguindo fazer a leitura do código de barras.


Pergunto em inglês se ele pode digitar os números, já preocupada com a besteira que tinha feito. Ele me responde em alemão com mais mal humor ainda o que entendo ser regras sobre como fazer um pacote correto e termina em inglês com um “right?”.


Um senhor atrás da fila, percebendo a tensão da situação, me pergunta gentilmente se estou entendendo o que o sujeito diz, e prontamente me explica em inglês. “Ele diz que o seu pacote pode até sair da loja dele, mas pelo fato do código de barras estar danificado, é muito provável que ele volte”.


Saio do local ainda abalada com o tratamento recebido, e com o coração apertado pela tentativa frustrada de enviar o pacote. Ainda por cima, vou ter que voltar ao quiosque anterior para imprimir a etiqueta novamente e tirar apenas um euro novamente de uma nota de 50, já que minhas moedinhas tinham acabado.


Entreguei meu coração em uma caixa

Respiro fundo. Chego ao primeiro senhor que realmente não fala inglês, saco meu google translate e tento explicar a situação. Não preciso. Quando ele vê meu pacote todo desengonçado e com o código de barras danificado, entende tudo.


Me explica, em alemão, que eu preciso colocar o pequeno pacote em uma caixa maior e, só assim, colar a etiqueta; caso contrário, nenhum carteiro conseguirá fazer a leitura do código.

Com um gesto, me manda imprimir a tag novamente (e eu, morrendo de vergonha, pensando como faria para tirar um euro da tal nota de 50). Imprimo, entrego para ele, que me faz uma embalagem caprichada, sem que eu precise pedir. Recusa a fita crepe que eu trouxe de casa, usa a dele, e faz o pacote com tanto cuidado e amor, que eu não pude resistir às lágrimas que teimavam em encher os meus olhos por tamanho gesto.


Enquanto ele fazia, falava coisas em alemão que eu entendia absolutamente apenas pela linguagem da compaixão e do cuidado que ele estava tendo comigo, 1000% oposto do que eu tinha recebido do cara da lojinha do correio. Pergunto quanto devo, um pouquinho mais animada porque teria que pagar além do 1 euro da impressão, o valor do pacote, o que facilitaria o troco da nota dos 50.


Ele me olha nos olhos, os vê brilhando com o sentimento de gratidão que transbordava dali, e me responde em alemão, gesticulando carinhosamente: “não me deves nada, você já teve o prejuízo com a impressão errada. Tenha um ótimo dia”.


Eu não aguentando mais de tanta gratidão e com uma vontade imensa de dar um abraço naquele homem, digo em inglês bem devagar: “você é muito especial. Thousands Danke schön! (Obrigado em alemão).”. Ele só sorri genuinamente de volta, aquecendo meu coração.


Corro (não, flutuo, de tão leve e transbordante de gratidão) para a loja do sujeito mal humorado, já compreendendo que o carinho enorme que recebi do outro desconhecido já era suficiente para mim e, de quebra, para oferecer um pouco ao mal humorado que quase estragou o meu dia.


Ele me vê com o novo pacote e já estende a mão para pegá-lo, sem antes apresentar surpresa com a minha rapidez em resolver a questão. Eu escancaro um sorriso para ele e digo em inglês perfeito e calmo: “aqui está o pacote, espero que desta vez correto e que não te dê muito trabalho com o código de barras. Uma pessoa muito especial me ajudou e ajudou a nós dois também a termos menos trabalho com a leitura do código do pacote”.


Calorosamente, aperto a mão do homem surpreso, e que a esta altura já sorria, e desejo a ele uma ótima sexta-feira e um fim de semana maravilhoso. Ele retribui como um novo e sorridente homem.


Neste momento, compreendi a incrível lição que o desconhecido do quiosque da impressão me ensinou, de que o bem sempre vence, e praticá-lo com qualquer que seja, nos torna uma pessoa e o mundo imensamente melhor. Com essa história, tirei 50 de apenas 1 euro.


#empatia #relacionamentos #vidacoletiva #vidacotidiana #vivernoexterior


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